Natalis est confraternitas cum Domino

Queridos (as);

O Natal sempre chega carregado de símbolos, luzes, ruídos, e memórias. Às vezes chega suave e nos encontra cansados, atravessados por perdas, silêncios e perguntas que não se resolveram ao longo do ano. Ainda assim, ele insiste! O tal do espírito natalino, né? E talvez seja justamente isso que o torne tão especial para muitos: o fato de não depender de estarmos prontos. 

Se no carnaval temos a licença para sermos felizes, para nos divertirmos entre plumas e mascarás coloridas, no natal podemos dizer que temos a licença para sonhar, para encher nossos pulmões de esperança e alegria por tempos melhores e, por isso, somos tomados por sentimentos de partilha, comunhão e por isso gostamos tanto de confraternizações; com o pessoal da empresa, com as crianças na escola, a turma da facul, a galera do clube, os irmãos da mesma fé e, é claro, com a família. 

Tenho pensado muito na palavra confraternização, tão repetida nessa época, quase sempre associada a encontros rápidos, mesas cheias, fotos e brindes. Mas ela carrega algo muito mais profundo. Confraternizar não é apenas estar junto. É, no fundo, reconhecer o outro como irmão e/ou reconhecer que só chegamos até aqui por que precisamos do outro em nossa vida, e em alguns casos, dos outros. Ainda que não haja laços de sangue, ainda que haja diferenças, discordâncias, histórias difíceis, é um movimento de reconhecimento do valor do outro em nós, na nossa história e no mundo.

O Natal é mais que o aniversário do Menino Jesus - que bobagem! - Ele (o Natal) nos recorda isso de forma delicada e também radical: um Deus que escolhe nascer humano, vulnerável, dependente do cuidado humano e num contexto social deprimente. Não vem impondo, não vem cobrando, não vem exigindo perfeição. Vem pedindo lugar, lugar que já no nascimento não encontra, sobra-lhe o estábulo.

Talvez a fraternidade comece exatamente aí: quando abrimos espaço no que somos — com nossas limitações, feridas e contradições — para que o outro exista sem precisar se defender. Natalis est confraternitas cum Domino (o Natal é a confraternização com o Senhor). Somos chamados, convidados a estarmos com Ele no exato momento em que da Sua Glória, Ele vem á terra para andar junto de nós e fazer-nos saber que nunca mais estaremos sozinhos.  

Confraternizar, nesse sentido, não é apagar conflitos nem fingir harmonia. É aceitar que a vida é feita de encontros imperfeitos, e que ainda assim vale a pena permanecer à mesa. É aprender a escutar mais devagar, a julgar menos rápido ou se conseguir, nem julgar, a sustentar a presença mesmo quando se quer sair correndo. Sabe, ás vezes a maior forma de amor é simplesmente não se retirar. #FicaADica

Que este Natal nos ajude a resgatar esse sentido mais verdadeiro: o de uma fraternidade que não se reduz a um dia no calendário, mas que pode começar ali, naquela conversa interrompida, naquele pedido de desculpas que ficou engasgado, naquele gesto simples que diz “você importa”, não! Muito clichê, melhor se for "Apesar de; Eu me importo com você", agora sim, mais real. E isso não significa que esteja tudo resolvido, mas que escolhemos não dificultar mais as coisas.

Desejo que o Natal encontre cada um onde estiver e como estiver: alegre ou cansado, cheio de fé ou cheio de dúvidas e que, aos poucos, nos ensine que não se trata de encher a barriga e fingir que estamos felizes, mas, de que somos irmãos e ser irmão não é ser igual, nem concordar sempre, mas cuidar da vida que nos é confiada no outro por quem a fez e que é a estrela do Natal: Jesus Cristo!

Que haja luz, sim, mas, que haja sobretudo humanidade.


Com carinho; Psicólogo Daniel Miranda.

Feliz Natal!


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